12 de janeiro de 2013

Sobre minha primeira BC

Não sou de fazer retrospectivas, mas achei essa ideia tão legal que não resisti. Minha primeira Blogagem Coletiva: Blog Retrô 2012.



Qual sua postagem mais querida em 2012? Qual te deu mais prazer em fazer?
Esta, pra mim, é a pergunta mais difícil. Mas irei eleger “Sobre um instante na sua estante”, passei uma tarde inteira, ao invés de prestando atenção nas aulas, escrevendo esta poesia. Foi muito gostoso criar aquela brincadeira com as palavras, e eu, que ainda podia contar meus poemas nos dedos de uma mão, fiquei muito feliz com o resultado.

Qual sua postagem mais popular, a que mais as pessoas gostaram, a mais comentada em 2012? Qual o motivo, você sabe?
Em termos de visualização foi “Sobre coisas que todo mundo gosta, menos eu”, provavelmente porque eu falei de coisas populares, que, por mais incrível que pareça, muita gente também desgosta (menos refrigerante rs). No entanto, se for pra levar em conta os comentários, a postagem mais popular foi “Sobre estruturas” e não sei o motivo. Mas talvez seja um assunto com o qual a maioria das pessoas se identificam, e por isso, não conseguem ficar caladas. É o tipo de opinião que não dá pra jogar pela janela. 

Qual sua postagem menos popular em 2012? Qual seria o motivo?
Sobre criar asas”. Era um momento em que eu ainda estava aprendendo a divulgar o blog. Pode ter sido esse o motivo.

Qual sua postagem mais pessoal, aquela onde tinha realmente um pouco mais de você?
Sobre aquele dia”. E a verdade é que essa postagem é tão pessoal que não consegui encará-la nenhuma vez desde o momento em que postei. Até agora. Aquele dia aconteceu, aquelas palavras foram ditas pra mim, não vejo como algo pode ser mais pessoal do que isto.

Esta é uma BC promovida pelo blog Um pouco de mim.
Se você também quer participar, corre que ainda dá tempo, os links serão aceitos até o dia 16. E se decidir fazer, deixe seu link aqui também pra eu poder conferir ok? Dá um pouco de trabalho, mas é uma retrospectiva que vale muito a pena. Beijos.                                            

8 de janeiro de 2013

Sobre os olhos e os olhares

O Concurso dos Olhos Cansados

Existe um concurso silencioso se espalhando pelos coletivos da cidade. O concurso que exalta a tristeza bela que existe nos olhos cansados. Todos são juízes, todos são julgados. Mas nem todos possuem aquele olhar característico que poderá tornar-lhe um finalista. E talvez, o vencedor de um prêmio ingrato.

Entre dias e noites, eu espreito almas solitárias como um fantasma, acordo ao despertar da manhã e descanso somente a alta noite, na sombra projetada por certos olhares cansados. Sou eu, um caça talentos, em uma busca fútil e infinita, para satisfazer os criadores e os criados desta competição. Sou eu, o prisioneiro de uma liberdade forjada, de uma prisão de grades translúcidas, da vida impregnada nos olhos alheios.

O que eu vejo, quase ninguém vê. Os olhos cansados são apenas o fim da história, mas ao encará-los eu sou o único a ver o começo, eu sou o único a viver o meio. O desanimo pode ser aparente, mas a dor é latente. Tamanha angustia são obrigados a carregar que seus olhos mal conseguem se manter abertos. Tamanha amargura, tamanho peso para seus espíritos se manterem despertos.

Vez por outra, observo uma inveja espessa escoar entre os finalistas diante dos que os aplaudem do lado de fora, inveja de seus olhares repletos de uma sutil animosidade, da luz e da expectativa não encontrada nos olhos daqueles cujo trabalho e o cansaço se transformaram nas cores dos seus olhos. Os finalistas e os eliminados. Infelizmente, serei eu a apontar.

Serão estes, os finalistas dos Olhos Cansados. Aquela mulher de grandes olhos negros que trabalhou o dia inteiro, que chegará em casa e ainda cuidará dos filhos; servirá ao marido. Nenhum tempo pra si mesma. Aquele senhor, idoso e de cabelos brancos que vê aproximar o fim da vida, que sente o esforço ter sido em vão, que gostaria de mais tempo, de mais saúde, de mais serenidade. E menos solidão.

Serão estes, os finalistas dos Olhos Cansados. A criança, miúda e tímida, que não pediu pra nascer, mas que ainda assim foi obrigada a crescer antes do seu tempo. O jovem, faminto e desacreditado, que não consegue ver sentido no mundo e na sua própria existência. Que tem medo do que acontece depois que a vida segue seu curso. Que nunca aprendeu a esperar.

Serão estes, os finalistas dos Olhos Cansados. As mulheres e os homens desta terra. Homens e mulheres que apoiam a cabeça na fé que se esvai, tão lenta e dolorosamente. Que se acomodam e dormem sobre a injustiça velada, fajuto travesseiro de veludo. Que se resignam e seguem viagem, esperando a próxima parada. O ponto em que irão descer. O momento em que irão partir.

Todos nós seremos passageiros dessa vida. Todos nós seremos juízes dos olhos dos outros. E todos nós seremos julgados por olhares ausentes. Mas no fim, seremos todos vencedores. Do Concurso dos Olhos Cansados. Nas mãos, um troféu inválido, que não compensa a nossa história. Que não compete a nossa hora. Nós partiremos então. Os olhos, já selados, guardarão o eco da tristeza, um silenciado grito de desespero. 

Ah, glória amarga! Quem dera sermos todos eliminados.

1 de janeiro de 2013

Sobre a claridade

Luz da manhã


O dia está tão claro, meus olhos ardem e eu quase não posso ver. Quero deixá-los fechados, quero poder abri-los sem dor, quero voltar para a escuridão a qual estava acostumada. Quero a paz morna da noite fria. E a solidão serena que nina o meu espírito. Mas não importa, estou do lado de fora agora. Então eu sigo meu caminho, tropeçando em meus próprios pés.

Pessoas passam por mim e quando me notam, minhas mãos e braços a proteger meus olhos da claridade que cega, me olham torto. Cospem em mim a felicidade que sentem ao ver a luz da manhã. E se por azar esbarram em meu corpo, fogem como se tivessem tocado nas vestes de um homem doente. Ninguém gosta da escuridão que carrego na alma.

Penso que com o tempo, vou me acostumar a claridade. Eu sinto que não demorará muito e meus olhos passarão a aceitar a luz do dia. E é assim que acontece. Durante o tempo em que o sol realiza sua trajetória majestosa no céu, eu me acomodo a sua luz. E acredito ter me adaptado a essa nova existência.

Mas eu nunca me acostumarei. Todas as manhãs a cena se repete. O dia é sempre tão claro, meus olhos ardem e eu quase não posso ver. A luz não me faz bem, o calor não me faz bem, e eu mal consigo me manter de pé sem poder ver o que está a minha frente. Sem saber o que me espera.

E toda vez eu penso que é uma rachadura, mas é a beira do precipício. E toda vez eu tropeço, ao invés de cair eternamente em direção ao infinito. Eu nunca sei o que acontecerá até dar o próximo passo. E não gosto dessa insegurança. Muito menos do medo que ela me traz. Eu só quero voltar para a escuridão a qual estava acostumada. Para enfim, poder abrir os olhos.

2 de dezembro de 2012

Sobre o nascimento das ideias


Uma ideia é como um vírus. Resistente. Altamente contagioso. A menor semente de uma ideia pode crescer para definir ou destruir você. 
- Inception

Tem ideia que nasce diferente. Às vezes vem de mansinho, de modo sorrateiro, e de tão devagar, a gente acaba aceitando, acolhendo, abrindo espaço. Deixando fluir e se acomodar. É perfeita, essa ideia, ela se molda e se encaixa. Felicidade, ela traduz. Felicidade branda e terna, quase um abraço. Calmamente, é fixada, e se torna semente, que se torna palavra.

É quase sempre muito simples, essa ideia, e é por ser tão encoberta de simplicidade que dificilmente a percebemos. Na verdade, é ela que nos escolhe, e sua seleção é muito rígida, porém, muito justa. Ela só escolhe os capazes de compreender que sua beleza reside justamente em sua simplicidade. Os outros não a entenderiam. Modificariam a sua essência, fariam perguntas que não seriam capazes de responder. E no final, a abandonariam, julgando-a complicada demais. Não se tornaria semente, muito menos palavra.

Essa ideia nasce e vive assim, confortável dentro da alma, mas existem outras que não. Como aquela ideia. Aquela que não nasce, que invade. Ela não pede licença para entrar, chega de repente, é espaçosa e se faz notar. É uma explosão, essa ideia, que se expande, que faz barulho, e tira tudo do lugar. Egoísta e prepotente. Não sabe o significado da boa convivência e quer toda as atenções e emoções centradas nela. 

Ela é incrível, majestosa, e sabe disso. Vaidosa. Bagunça a gente, essa ideia. Bagunça tudo. Mas não tem jeito. Se ela nasce, você se apaixona por ela. Ninguém resiste. É sedutora e meio insana. Sempre um artigo definido. Definidíssimo.  É como um vírus, se aloja e prolifera. Daí a necessidade de botar pra fora, de combater. São esforços inúteis. Ela é impossível de conter. Impossível não se render. Ideia assim, é bom saber, não morre, só adormece. E quando acorda, enlouquece. Assumiu o controle. 

Tem ideia que nasce diferente. Às vezes causa paz, às vezes causa tumulto. Às vezes humilha, e em outras vezes, é motivo de orgulho. Mas sinceramente, como vai surgir, não importa muito. Contanto que nasça. E  claro, que no fim, a ideia se torne palavra.

24 de novembro de 2012

Sobre cicatrizes


Ela achou ligeiramente engraçado o modo como se trataram quando se reencontraram numa tarde, naquela antiga praça. Agiram como se fossem apenas dois conhecidos seguindo as regras da boa convivência. Atuaram como se não possuíssem um passado em comum, como se no passado, não tivessem chegado a possuir, um ao outro. Os modos eram contidos, e os sorrisos sempre tímidos, a única coisa que podia entregá-los eram os olhos. Os olhos estavam virados, davam voltas, os olhos lembravam.

Ela perguntou como ele andava. Ele admitiu que passava por uns problemas. “Mas nada demais”. Ela sorriu e assentiu como se acreditasse; ainda o conhecia melhor do que ele imaginava. Ele perguntou como ela estava. Ela disse que estava bem. Ele pensou que aquela era a coisa certa a se responder; ela parecia mesmo bem. Passaram algum tempo se encarando, com olhos voltados a um passado distante.

“Você não mudou nada”. Ela comentou mais pra si mesma, do que pra ele. Ele deixou a cabeça pender. “Eu me mudei.” Brincou, disfarçando a frustação que sentia. Não era assim que ela deveria vê-lo depois de tanto tempo. “Você mudou.” Ele sentenciou com certa nostalgia. “O cabelo, eu cortei, pintei...”. “Não”, ele disse, “você mudou aí dentro”. E apontou para a mulher que estava parada a sua frente. Ela esboçou um pequeno sorriso. “Eu cresci”.

Por um instante, a atmosfera entre eles mudou também, tornou-se mais intima e morna. Ele começou a suar. Ela percebeu. Então voltaram a comentar sobre coisas superficiais, sobre o tempo, falar sobre o clima. Era impressão deles ou fazia mais frio na cidade? Sentaram-se um pouco num banco ao lado de uma árvore que fora cortada. Ela lembrou que já estivera ali com ele. Mas lá atrás a árvore ainda lhes fazia sombra. A árvore ainda era árvore. Ficaram por alguns momentos discutindo bobagens que não tinham raízes no passado.

Finalmente ele disse que tinha que ir, já estava atrasado para um compromisso. Ela leu nos olhos dele que não havia nenhum, mas não resistiu a sua partida. Já era mesmo hora deles se despedirem. “Nos encontramos por aí”. Foi o que ele falou. “Até mais”. Ela lhe respondeu. Por dentro, murmurava um resignado “adeus”. Nunca mais se veriam. Nunca mais se esqueceriam.

Deixou que ele sumisse de sua vista e voltou a se sentar. Seus olhos foram atraídos ao presente. Passou a observar a árvore que não existia mais, e se compadeceu dela. Cortaram seu tronco e deixaram-na como se estivesse em carne viva. Expuseram sua ferida. Relegaram-na a mostra só pra ressuscitar na memória a dor da lembrança do que um dia ela foi.

Veio a sua mente a imagem de que eles foram como aquela árvore, um dia flor, um dia frutos, um dia sombra, um dia amor. Um dia a vida cortou o que existia entre eles e deixou que se reencontrassem ali. Para que todos pudessem ver o que restou. Assim como fizeram com a árvore cortada, expuseram a sua cicatriz e ressuscitaram na sua memória a dor da lembrança do que um dia eles foram. Do que deixaram de ser.

Árvores são cortadas todos os dias. E numa proporção bem menor, árvores são plantadas todos os dias. Ela costumava viver de pequenas plantas. Pôs a mão no bolso e tirou de lá algumas sementes que há muito tempo não tinha coragem de usar. Sementes de confiança, de oportunidade, de esperança. Sementes de amor. Levantou-se e foi plantar uma árvore em um lugar fértil a eternidade, decidida a fazê-la crescer, a fazê-la durar. Decidida a não deixar que ninguém a derrubasse. Nem mesmo a vida. Levantou-se decidida a deixar as cicatrizes para trás. Decidida a voltar a amar.

18 de novembro de 2012

Sobre Marcos de Sousa



Marcos de Sousa possui uma forma muito especial de ver o mundo, e é sob esse olhar que ele escreve seus textos, principalmente suas poesias. Sim, Marcos é um poeta, tem um blog lindo e em breve lançará seu primeiro livro: Coração de vidro. Gostaria de conhecer um pouco mais sobre o vencedor do concurso “O que te inspira?”? Então confira essa entrevista que o Marcos deu para o Ideias Defenestradas.

1. Oi Marcos. Bom, começaremos do principio. Há quanto tempo você escreve? Como se apaixonou pela escrita?

Olá, Malu. Bem, eu escrevo há muito tempo. Porém, comecei a escrever mesmo, com o intuito de tornar-se escritor, há três anos. Foi por incentivo de uma professora que leu meus textos, apoiou-me e incentivou a divulga-los.

Na verdade, eu me apaixonei pela leitura e com ela, veio a paixão pela escrita. Infelizmente, me tornei um verdadeiro leitor já tarde. Eu estava na sétima série no ensino fundamental e fui obrigado a ler Machado de Assis. Foi paixão a primeira vista, ou, a primeira lida, como preferir.

2. Quais são os principais autores ou obras que influenciaram o seu modo de escrita?

A princípio, eu me inspirava única e exclusivamente no Machado. Foi meu primeiro amor. Depois, fui abrindo horizontes, conhecendo novos estilos, escritores e acabei apaixonando-me pela poesia. Daí em diante, os autores que mais me influenciaram foram Vinícius, Quintana e Drummond. Posteriormente, conheci Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu. Acabei por aderir aspectos da escrita deles, principalmente o subjetivismo de Caio e a atualização da “epifania” clariciana.


3. E se você pudesse conviver com seu escritor favorito por um dia, quem seria ele? E o que lhe perguntaria?

Essa é difícil. Escolher apenas um entre tantos que venero é quase maldade. Mas acho que eu escolheria o Caio, se ele estivesse ainda vivo, é claro. Talvez até não perguntasse nada. Acho que a emoção seria tanta que eu me calaria diante de seu talento e criatividade. Mas, se conseguisse esboçar palavras, talvez o perguntasse o que realmente o inspirava. De onde e como ele canalizava tanta profundidade e beleza.


4. Pelo que já vi no “O mundo sob o meu olhar” você prefere se expressar por meio da poesia. Por que?

Eu costumo dizer que, para contar um romance em prosa, é necessário escrever um livro. Para contar em versos, basta escrever uma poesia. A poesia é síntese. Cada verso contém um universo. Em cada refrão, tudo muda. Não querendo exaltar a poesia porque eu a escrevo, até porque também amo prosa, principalmente crônicas, mas a poesia e a prosa poética são o ponto máximo da subjetividade e beleza.

5. Falando a respeito da sua participação no concurso. Sua foto combinou perfeitamente com o seu parágrafo, qual a história por detrás dela?

Aquela foto foi tirada na manhã seguinte do meu baile de formatura. Após o baile de formatura, fui assistir o nascer do sol na praia que ficava em frente à casa de festas. A foto não foi combinada, foi tirada espontaneamente. Ela sempre foi uma das minhas preferidas. Até porque, acho o nascer do sol umas das poucas belezas restantes neste mundo.


6. Não posso deixar de falar sobre seu livro. Qual é a sensação de saber que em breve ele será publicado?

Sinceramente, ainda não sei. Ainda não “caí na real”. Desde que recebi o “sim” da editora, parece que minha vida virou um sonho. Não é um sonho virando realidade, mas o contrário: a realidade tornando-se um sonho. Muito mal comparando, acredito que deve ser a mesma sensação de ir ao espaço. Você conquista o que para muitos será impossível.


7. Afinal, sobre o que fala Coração de vidro? Gostaria de falar um pouco dele pra gente?

O livro “Coração de Vidro” é uma antologia poética, ou, um romance em versos, como eu prefiro chamar. Ele demonstra a transformação de uma vida, a metamorfose do ser após ser tocado pelas sutilizas do amor. O livro é divido em duas partes: “Brejo dos Corações” e “Coração de Diamante”. O objetivo é realmente demonstrar as duas fases da vida: o antes e o depois do amor.

Apesar de “brega” para muitos, o amor realmente muda a vida, transforma seres. Ele nos faz pessoas melhores. Provei disso e sei o que estou falando. O amor é, e sempre será, a força geradora da humanidade. As pessoas são tão descrentes deste sentimento porque experimentam a sua versão mais desprezível: a paixão. Elas confundem paixão, desejo e luxúria com amor. Amor transcende a tudo isso. Amor é querer bem, sentir-se bem, tornar a si mesmo melhor. Os românticos, mas só os verdadeiros românticos, me entenderão. O livro é exatamente isso.

Por hoje é só. Obrigado Marcos! E vocês, o que acharam da entrevista dele?

11 de novembro de 2012

Sobre o barulho


Salão de Festas

Eu posso ouvir o barulho
Que ecoa do salão de festas
Eu posso ouvir as vozes
Que vibram ao deixar escorrer a violência
Eu posso ouvir a canção
Dos que entoam a banalização da morte
Eu posso ouvir o mundo
Que irrompe em comemoração
Esta é a celebração da dor
Que a vida acolhe
Como a infância abandonada
Por um pai injusto e cruel
Eu posso ver o tumulto
Das suas danças coreografadas
Eu posso acompanhar seus passos
Ao som da música tocada
Essa cantoria que se espalha
Poderosa e desafinada
Júbilos dos que perderam a fé
Ah, eu posso vê-los
Convidados impassíveis
E assistir a seus atos vãos
Ah, perdoem-me, mas eu posso vê-los
Irreprimíveis
E chorar a sua próxima ação
Inconsequentes
Lançarão em uma mesa de aposta
Os nossos bens preciosos
E o dono da casa sorrirá satisfeito
Em suas mãos, detém a vitoria
A consciência calejada que acusa
É um sussurro abafado pelo desejo
Eu posso sentir
Escorrer pela minha face
As cruas lágrimas vermelhas
Eu sei, chegará o furioso tempo
Em que o véu da ilusão que paira sobre nossos olhos
Se desintegrará
E o barulho que não cessa
Haverá de fluir
Para a margem do desespero
Eu sei, chegará o calamitoso tempo
Em que encararemos o espelho e veremos
As nuances da nossa verdadeira natureza
Atrás de nós, um rastro de sangue
Que não pode mais ser encoberto
Eu posso prever o amanhecer
Que precede o fim da festa
E então não sobrará mais nada
A não ser a sujeira deixada pra trás
Que se acumula em um canto
De um mundo vazio e esquecido
Na tentativa de substituir nossas perdas
O futuro é um rio de águas claras
Quando o jogo terminar
O vencedor levará consigo os ganhos
E a nós, os meros humanos
Não sobrará mais nada
A esperança, a vida e o amor
Entregamos às mãos erradas
Às consequências
Nós perdemos tudo